1 de Abril.

Sou tão cheio de tretas, tenho-as mais que as petas contadas nestas horas terças e o pior é que por vezes acredito naquilo que grito, como se soubesse do futuro sobre o qual a dar à língua me aventuro. Distingo-a, separo a minha língua, ao crer que sou diferente, para me descobrir não mais ciente que aqueles que me rodeiam e chateiam, por ser eu na verdade menor, ou serei eu tão verdadeiramente superior que não podia senão ser condenado a desconhecer o meu ilustre estado? De qualquer forma nada me transforma ou me tira a norma da dura cabeça quente com que penso imenso imenso. Sou tão tenso, imenso, quando venço a minha outra metade e amarro ao lenço a outra boca enorme que conheço e me conhece a mim, e não me quer deixar assim, atirar palavras sem fim ou fundo de verdade. Por pura vaidade. Ansiedade de caber no ridículo cubículo da sociedade que me atormenta. E me adoenta. E não me alenta nem tenta. Afugenta de mim os fracos e deixa-me nacos de seres opacos e dissolúveis na mais insossa das águas. De mágoas sou composto, de estilhaços de mau gosto. Educação de maldisposto e envergonhado, abafado pelo cortinado de aparente bordado a dourado, roto e rasgado da raiz até ao rabo. Sou produto de mercado, vendido e trocado por nem um punhado de dignidade, mero artigo de fraqueza, consciente de que a riqueza põe mais pão na mesa que felicidade, e mesmo assim portador não oficial de ideias contrárias, todas elas válidas por razões várias, que invento no momento de todo o julgamento, ao qual desde cedo cedo porque fedo a medo. 
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Vinte e Nove de Março de Dois Mil e Treze.