problemas do coração
pensava com certeza o que precisava, só não sabia não ser o que queria.
quando sorria, não era por simpatia, mas porque necessitava
de suprimir a tristeza que na alma vivia.
e sorrisos recebia de volta, mas sem escudo, sem escolta,
entravam eles à solta pelo mirrado coração adentro.
e dentro, como feridas pustulentas, por feder acabavam,
perdidos onde outrora pertenceram e agora destoavam.
sorrisos sem olhos, verdadeiros não são.
soube então com certeza o que queria...
só não pensava ser o que precisava.
sei-o certissimamente.
sou sem ser sempre,
mas sou-o, somente.
sedento, sozinho,
solitário assento pó
que sou só, sei-o eu
e sabe-o toda a gente.
sinto-me senti-lo
saboreio o sigilo
que sem se assomar
sopra como vento
segredos secretos
sem tento nem fundo.
são sentimentos do mundo
circunscritas sentenças
de coração sofrido
sarro escondido
e seríssimo castigo
deste meu ser sem abrigo.
this is my house
my house is too small for you.
tonight you are bigger than the sun
you burn faster than i run.
my house is too flammable,
too warm and too slow for you.
my house is too small right now.
yet you burst in and take space
leaving blood in your wake.
you grow louder and wilder
this was a mistake.
my house is too small somehow.
my house is myself and i am too busy for this
i know it’s unfair and it’s me you miss,
but my turn had to come, don’t hiss
i still love you and it’s you i kiss
when the others leave
and i come back to bliss…
but today, i am over you sis.
e de repente um vazio encheu o meu coração.
entendi-o como ausência, na escuridão.
sou só eu comigo aqui,
não mais nós sem ti.
nem choro nem me permito.
de que adianta se parece delito
essa mágoa que tanto finto
quando é catarse que não sinto?
antes esvaziar de vazio
e encher de água um rio
que corre sem saber,
sem rumo nem querer,
mas tão certo de chegar
um dia de sol ao mar.
faz cisma o fascismo
o fascismo de hoje não é menos fascismo por ter outra cara. faz sismos por birra e embirra e embarra com todos os que lhe são diferentes. é individualista e snob, irresponsável e pobre. é incongruente e é demente, de mente naturalmente egoísta.
o fascismo de hoje não é menos violento por andar à vista e parecer ridículo, inconcordável, conspícuo sempre-em-pé. mais confortável é, talvez, por fingir tamanha fé, em si próprio, no seu ideal, vociferante vaidoso e descarado sem igual. iludido e cego, surdo no seu pedestal, grita como outrora, a memórias esquecidas ou distraídas agora.
o fascismo de hoje é fantochismo de ontem, mascarado de amanhã. é vilã ideologia de extremos, sem barco nem remos que naveguem a nação. é água sem pão que alimenta vulnerabilidades com habilidosas manobras à rectaguarda, alimentando-se a si de uma farda que ostenta com orgulho, manchada de sangue e entulho.
da vida de outrem oportuno ladrão, o fascismo não conhece perdão. corre em frente de palas nos olhos e espada na mão, agarrado à fralda, qual criança sem não. o fascismo é manhoso, contagiante perigoso, e por isso requere cuidado, temor e atenção. virar-lhe as costas é sentença, iludida crença de que o tempo tudo cura.
o fascismo existe e perdura, só precisa de justa e fria objecção que lhe acalme a fervura.
Oração do Artista
Ó Lei da Criatividade, ó divina inspiração, deixai correr em mim todas as imagens, boas ou más, grandes ou pequenas, e dai-me a capacidade de discernir quais aquelas que devo seguir e quais abandonar.
Ó suprema entidade artística, canaliza-te-me por entre as veias e enche-me de ideias para concretizar. Veículo eu, dirigente tu da minha mão, faz de mim o teu peão e leva-me onde quero chegar.
Ó génesis de toda a minh’arte, livrai-me da preguiça e da inércia, dai-me disciplina, paciência e harmonia para que possa criar com confiança e paz de espírito. Afastai de mim o que de mim vem por mal: sabotagem, crítica e desmotivação. Deixai-me cair na tentação de criar e não na de destruir e livrai-me de todos os que no meu caminho se pronunciam a meu desfavor.
Fazei por mim e eu farei pelos outros.
what about mud?
other than being one of the softest most delicately intricate ways to be one with the earth, while covered in brown from the hair down.
mud, of soils and floods, mixed royals and bloods, seals life or duds in darkening quiet thuds.
in all of that mud gives so much love, unknowingly snubbed, trudged and misjudged, but certainly beneficial, for the wounded cicatricial or even as one initial form of play.
mud is gay.
mud is home for the lost, prone to cover with moss them who so desire, putting out fires and spreading choirs of worms; new vermin with germs run rife.
what about mud isn’t life?
7 year gift
after longing and waiting,
i’ve fulfilled a most hauntingly
accurate craving
one for the intellect
as much for the soul
had i known what to expect
i’d have long filled this hole
twenty square metres
one table, a bed and a stove
fields of grass and small creatures
graced me as i wrote
bourton in swindon
two nights burned bright
but in my heart it will linger
and keep my spirit alight
🫀+ 🧠
are shameful thinning of humane treating
time and time over people fear another
led by drovers they trample and smother
careless, loveless, they wail in despair
and remembering unfairness perpetuate their mare
money and power's regarded as gold
by those who devour ripped hearts cold
by way of deceit stories are told
and in their cheat become centrefold
a war then ensues, inevitably dark bruise,
decimating in uproar populations uncalled for
life itself could not escape
its own consequence, its fate
it teaches what was learned
forgetting stones unturned.
stones of respect,
also of freedom,
of tolerance, we need 'em.
of forgiveness and above,
should one find courage
and consider peace,
Alentejo
de bronze, ouro e prata.
Vim do mar colheres não vi
só água, areia e gente pacata.
Do mar a água gelada
do sol o calor do desejo.
Une-se o rio à maré vaza
nesta praia de Odeceixe.
Os rochedos arrocheiam
por este vasto mar adentro.
Como o sol também anseiam
deitar-se e dormir ao relento.
As gaivotas chegam enfim
depois de um dia longe do mar.
Que não se cheguem a mim
se não me vão ensinar a voar.
Foi bom dia este da costa
já atrasado de secura e luz.
Remediou-se-me a aposta
que tudo Vicentino me seduz.
nonstop
how could i rest and breathe and even stop
to look at the trees, the grass, the sky and the lot
to let my face tan and my brain rot?
how could i walk around and plot
the story of my life in mere thought?
surely i ought to sometimes slow this pace,
at the very least to a trot,
but how daring to get lost
in the corners of my mind
indulgent and blind,
how careless, how bold,
how very kind to my soul,
but at what cost?
how could i not exhaust my body and myself
by running amok, ignoring my health,
seeking every small opening,
but not seizing it, not focussing,
haling it all in, exhaling it all out
refusing to sprout into the person that i am
'cause i am...
instead living in disguise,
pretending not to see that
waiting there in front of me,
sitting still and patiently,
is my own future inevitable demise.
yes, death.
death awaits us all,
regardless of achievement,
mediocracy or even small an existence.
death resists us, winning the most
in no way to boast, but simply ghost
those insisting on persisting.
so how can i stall this ever moving train
avoid arrival and avoid the pain
of having it all stop at once,
and feeling a right dunce
for not having tired myself flat?
how do i do that and feel accomplished
in life as in 'done this'
then move onwards and upwards
not sideways and backwards?
i guess i just don't, or won't,
or am bound to forever moan to
whoever listens,
hoping it will, if nothing else,
potentially kill a bit of this nonsense.
MANIFESTO
Basta... Basta! Basta desta nefasta perspectiva gasta de ser pouco e pequeno. Basta desta madrasta atitude podre, bolorenta, molhada, fraca e pustulenta. Basta desta crença religiosa noutros deuses que não o são. Basta de comparação. Basta deste anti-eu que me sentencia sem perdão. Basta do grilhão que prende cada mão, sou livre e sem noção.
Basta... Basta, que não me basta viver assim. Não me basta ter metade, nem que queira não me cabe dentro do corpo e da verdade tudo o que imagino vir a ser. Quero crescer para a frente, parar de ranger o dente e provar que tenho quente a vontade e a mente. Mas não me basta querer, cá dentro falta o poder, falta-me arder para voltar a renascer.
Então abasta... Abasta que não se gasta a ambição e a esperança. Abasta-te cineasta, de filmes e histórias, de imagens e sons, sensações sensórias de vários tons. Abasta essa casta de ser criativo, que no mundo contrasta e te mantém vivo. Abastado é aquele que em si acredita e a sentimentos interdita que não venham por bem. É assim contigo, e certamente mais alguém.
Por isso basta. Basta desse alter ego pederasta que se aproveita e arrasta o teu coração por um fio. E pela rua deixa de sangue um rio, sem o saber azul, não de realeza, mas da frieza de que se alimenta para a tal vileza sobreviver... E continuar.
Eu, quem?
So constantly and real
With apparently no reason
Other than an ongoing self-treason,
Of confidence a dark lack and, of course,
A fear so thick when I attack I bounce back.
A fear so bleak, of the unknowing and of failing,
of succeeding but not prevailing.
And a shame so sure of itself
It should have a cock.
Weaving thoughts and tying knots,
Making me blind and fall behind
Myself.
My poor self, woe is me,
So tired and lonely.
So badly wired together
That I could not but be tethered
To this evil twin I have inside,
Resting in formaldehyde,
Conserved and conservative,
Absurd and derivative,
He's no relative of mine
But within me he'll lie
Puppeteering my hands, mouth and feet
As if I allowed him to keep
me locked, muzzled and tied.
Should I abide?
Or rather ignore
This that is such a bore
Of all feelings the more
Insignificant and ill-advised.
Even if sometimes disguised
As happy little lies.
Rye 24/01/2023
Sem me lembrar que não sou daqui.
Não falo esta língua,
Nem sou deste céu nem deste chão.
Não sou das nuvens nem da lama,
Por isso não me encontrei.
Mas descobri Natureza, pura beleza.
Sozinho, contra todas as famílias, casais e animais,
Descobri paz e aventura.
Encontrei na areia uma ternura que desconhecia.
No sol generosidade e no mar até silêncio.
Uma calma ensurdecedora, uma quietude caótica.
Agora escrevo ladeado por uma casota preta e branca, com um telhado vermelho.
Sinto-me reflectido nela, tão simples e despretensiosa, mas vista por todos à distância.
Monocromática na sua estrutura, cheia de cor no topo, protegida por ela, a cor.
As abelhas pousam nas minhas meias amarelas.
Eu digo-lhes que não sou uma flor,
Mas tal como eu, parecem não falar a mesma língua.
Por isso vamo-nos todos embora.
Felizes, mas calados.
Epifania n. 5
Em noite de Maio vejo flores de Março,
E um cigarro que seguro com o braço,
Destro de nascença, esquerdino quando disfarço.
Penso à velocidade da luz,
Na vida de Londres que me seduz,
Em sonhos do Porto, em homens nus.
Em filmes de terror, minha sempre cruz.
Mas não avanço nem regrido,
Não me canso, nem progrido,
Estagnado, mas criativo,
Continuo decidido
Nesta vida de persistência,
Sucessos, falhanços, paciência.
Acima de tudo errada carência
De aprovação, reconhecimento e opulência
Que me envergonha dos pés à cabeça,
Me implora que finalmente cresça
E perceba que não há quem peça
Por atenção, quando começa.
1 de Abril.
Vinte e Nove de Março de Dois Mil e Treze.
Oh, a leveza...
Soubera eu o que sentiria
E já teria a destreza.
Desmantelada a tristeza,
Espero tamanha vileza,
Mas para o resto da vida
A liberdade é riqueza.
Ganhei ar, ganhei tudo.
Perdi medo, desfiz-me mudo,
Tremendo foi saindo
e disse tudo. Tudo.
Agora expiro,
Finalmente expiro.
Expiro com a certeza
de não voltar a inspirar
tão usado suspiro.
Oh, a alegria...
Oh, a leveza...
Soubera eu o que sentiria
E teria começado pela sobremesa.
