A minha voz escorrega,
nas notas musicais e entrelaçados,
escorrega, por entre os dentes,
pelo ar fora, escorrega e perde-se.
Por isso não consigo cantar o Fado
que me canta a mim
sem dó nem tão pouco piedade.
Ou sequer um esgar de saudade.
Grita-me e desdobra-se por mim abaixo
deixando-me sem encaixo nem amparo.
Amparo.
Forreta, s. 2 gén. Pessoa avarenta; sovina. (De forrar).
De Pessoa tenho pouco,
Avarento talvez nada,
E sovina?!
Está calada,
eu não sou assim.
Chamem-me poupado.
É menos agressivo
e mais delicado.
É mais verdadeiro,
e eu passo o dia inteiro
a pensar no dinheiro
que gasto em comida,
porcarias e outras iguarias.
Porque para tudo poupo.
Para tudo junto.
P'ra hoje ou p'r'amanhã,
Até ser defunto.
Mas não me chamem forreta.
Preferia morrer numa valeta.
Perneta,
maneta,
cabeceta
e pileta.
Tudo... menos forreta.
imprevisível término.
Não fosse o Fado tão vil e cruel,
e eu teria o que há tanto anseio...
Uma vida com sabor a mel,
e por dentro não ser tão feio.
Mas não tem culpa o Fado,
que tudo faz o que lhe é ordenado,
grande pau-mandado...
Sim, porque eu sei que és Tu
o manda-chuva, és Tu.
O mau da fita és Tu. ÉS TU!
Sei que daí te ris e me gozas
das minhas rimas e das minhas prosas.
Das minhas letras horrorosas.
Mas sei que me adoras,
lá no fundo.
Não sei é porque fico em segundo
nesse fundo imundo e profundo,
em que sou mero vagabundo
num moribundo mundo
em que me afundo e confundo.
Não gosto e não queria.
Alguém me empresta lágrimas?
Preciso dumas. Perdi as minhas,
algures no crescimento.
E algum dente?
Estraguei os meus,
inconscientemente.
Uns olhos?
Já não vejo como via...
Agora só preto. Nem sei onde me meto.
Umas pernas.
Estas já não me servem
p'ra fugir de mim! São lentas,
e eu muito rápido.
Uma boca, têm?
P'ra colar por cima desta,
que não se abre nem se fecha.
Ah! E uns miolos?
Os meus não são miolos.
Preciso de miolos! Melhores miolos.
Mais miolos.
Troco miolos. Alguém?
Preciso dumas. Perdi as minhas,
algures no crescimento.
E algum dente?
Estraguei os meus,
inconscientemente.
Uns olhos?
Já não vejo como via...
Agora só preto. Nem sei onde me meto.
Umas pernas.
Estas já não me servem
p'ra fugir de mim! São lentas,
e eu muito rápido.
Uma boca, têm?
P'ra colar por cima desta,
que não se abre nem se fecha.
Ah! E uns miolos?
Os meus não são miolos.
Preciso de miolos! Melhores miolos.
Mais miolos.
Troco miolos. Alguém?
UnLucky Luke
Venho do escuro,
Trago o Medo,
Sou inseguro
E só tenho um dedo.
Um dedo de testa,
Dois de consciência,
Pois é aqui, nesta,
Que se nota a demência.
A demência que existe,
Neste meu ser azarento.
Vem devagar e triste,
A passo muito, muito lento.
Rico, Grande e feliz,
Tomara ser como um duque.
Mas o homem deste nariz,
Dá pelo nome de UnLucky Luke.
Trago o Medo,
Sou inseguro
E só tenho um dedo.
Um dedo de testa,
Dois de consciência,
Pois é aqui, nesta,
Que se nota a demência.
A demência que existe,
Neste meu ser azarento.
Vem devagar e triste,
A passo muito, muito lento.
Rico, Grande e feliz,
Tomara ser como um duque.
Mas o homem deste nariz,
Dá pelo nome de UnLucky Luke.
Eu sou um imaginador.
Imagino tão completamente
Que chego a fingir ser minha
a recordação que me vai na mente.
E os que ouvem o que digo,
No relato sentem bem
Não a "minha" recordação
Mas a que deles têm.
E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a confusão,
Esse comboio de corda
Que se chama imaginação.
Imagino tão completamente
Que chego a fingir ser minha
a recordação que me vai na mente.
E os que ouvem o que digo,
No relato sentem bem
Não a "minha" recordação
Mas a que deles têm.
E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a confusão,
Esse comboio de corda
Que se chama imaginação.
Deixei fugir o meu balão.
Era d'hélio e, por isso, voava.
Era vermelho e, não por isso, voava.
Larguei-o e por isso ele voou,
porque era um balão que voava..
Voava porque era d'hélio e,
por isso voava.
E porque era um balão..
D'hélio.
Vermelho.
E voava, voava..
Era d'hélio e, por isso, voava.
Era vermelho e, não por isso, voava.
Larguei-o e por isso ele voou,
porque era um balão que voava..
Voava porque era d'hélio e,
por isso voava.
E porque era um balão..
D'hélio.
Vermelho.
E voava, voava..
Chamem-me Alberto Caeiro, se quiserem!
Mas eu DETESTO pensar! Estou farto..
E chamem-me Fernando Pessoa por não conseguir parar
De o fazer.
Chamem-me Ricardo Reis, porque aceito. Tudo..
E chamem-me Álvaro de Campos por querer
"ser eu toda a gente e toda a parte!"
Chamem-me até Bernardo Soares
Por ser apenas 'semi' de mim mesmo.
Chamem o que me quiserem.
Pois eu sou eu.. e todos eles.
Mas eu DETESTO pensar! Estou farto..
E chamem-me Fernando Pessoa por não conseguir parar
De o fazer.
Chamem-me Ricardo Reis, porque aceito. Tudo..
E chamem-me Álvaro de Campos por querer
"ser eu toda a gente e toda a parte!"
Chamem-me até Bernardo Soares
Por ser apenas 'semi' de mim mesmo.
Chamem o que me quiserem.
Pois eu sou eu.. e todos eles.
